Insuficiência Renal Aguda (IRA) / Lesão Renal Aguda (LRA)
📖 Definição
KDIGO 2012 (critérios diagnósticos — qualquer um):
- Aumento da creatinina sérica ≥ 0,3 mg/dL em 48 h
- Aumento da creatinina ≥ 1,5× o basal em 7 dias
- Débito urinário < 0,5 mL/kg/h por ≥ 6 h
Termo atual: Lesão Renal Aguda (LRA/AKI) — engloba desde alterações mínimas até anúria completa.
📊 Epidemiologia
- Incidência na população geral: 2–3/1.000 habitantes/ano
- Hospitalizados: 5–7%; em UTI: 50–70%
- Mortalidade: LRA leve 10–15%; LRA grave em UTI: 40–60%
- LRA x DRC: cada episódio de LRA aumenta risco de progressão para DRC e DRC para DRET
📋 Classificação — KDIGO (Estadiamento)
| Estágio | Creatinina | Débito urinário |
|---|---|---|
| 1 | ↑ ≥ 0,3 mg/dL em 48 h OU 1,5–1,9× basal | < 0,5 mL/kg/h × 6–12 h |
| 2 | 2,0–2,9× basal | < 0,5 mL/kg/h × ≥ 12 h |
| 3 | ≥ 3× basal OU Cr ≥ 4 mg/dL OU início de TRS OU RFG < 35 mL/min/1,73m² (< 18 anos) | < 0,3 mL/kg/h × ≥ 24 h OU anúria ≥ 12 h |
🔬 Etiologia — Classificação Fisiopatológica
Pré-Renal (40–70% das LRAs)
- Hipovolemia: hemorragia, diarreia, vômitos, queimaduras, poliúria
- Redução do débito cardíaco: ICC, IAM, tamponamento
- Vasodilatação sistêmica: sepse, cirrose (síndrome hepatorrenal)
- Vasoconstrição renal: AINEs (bloqueiam PGE₂), inibidores da calcineurina
- Medicamentos: IECA/BRA (reduzem pressão de filtração na DRC/estenose bilateral de artéria renal)
Biomarcadores da LRA pré-renal:
- FENa (Fração Excreção de Sódio) < 1% (rins preservando Na)
- FEUreia < 35%
- Osmolalidade urinária > 500 mOsm/kg
- Ureia/Creatinina sérica > 40:1
Intrínseca / Renal (25–40%)
- Necrose Tubular Aguda (NTA) — mais comum:
- Isquêmica: pré-renal prolongada → morte de células tubulares
- Nefrotóxica: aminoglicosídeos, contraste iodado, cisplatina, mioglobina (rabdomiólise), hemoglobina (hemólise), ácido úrico
- Glomerulonefrites agudas: hematúria + proteinúria + hipertensão
- Nefrite intersticial aguda (NIA): antibióticos (β-lactâmicos), AINEs, inibidores de bomba de prótons; eosinofilúria clássica
- Microangiopatia trombótica: SHU, PTT
Biomarcadores da NTA:
- FENa > 2%
- Urina: cilindros granulosos "marrons", células epiteliais tubulares
- Osmolalidade urinária < 350 mOsm/kg
Pós-Renal (5–10%)
- Obstrução das vias urinárias
- Bexiga: hiperplasia prostática (HPB), bexiga neurogênica
- Ureter bilateral: fibrose retroperitoneal, tumor, cálculo bilateral
- Diagnóstico: USG (hidronefrose) → alívio da obstrução reverter função renal
🩺 Diagnóstico
Avaliação Inicial
- Anamnese: medicamentos (AINEs, contraste, antibióticos), diarreia/vômitos, queimaduras, cirurgia, quimioterapia
- Exame físico: sinais de volume (PA, FC, turgor, mucosas, edema), bexiga globo, débito urinário
- Exames de sangue: Cr, ureia, eletrólitos (K⁺!), HCO₃⁻, hemograma, CPK (rabdomiólise)
- Urina: EAS (cilindros, hematúria, proteinúria), sedimento, FENa, osmolalidade urinária
- Imagem: USG renal (tamanho renal, hidronefrose, obstrução)
Biomarcadores Emergentes
- NGAL (gelatinase-associated lipocalin): aumenta 2–6 h após lesão tubular (antes da Cr)
- KIM-1, IL-18, cistatina C: uso em pesquisa e centros especializados
Hiperpotassemia — Emergência
- K⁺ > 6,0 mEq/L OU alterações no ECG (ondas T apiculadas, PR longo, QRS alargado, ritmo sinusoidal)
- Tratamento escalonado:
- Gluconato de cálcio 10% 10–20 mL IV (estabiliza membrana) — efeito imediato
- Insulina Regular 10 U IV + glicose 50% 50 mL IV (desloca K⁺ para intracelular) — efeito 30 min
- Salbutamol 10–20 mg nebulizado (desloca K⁺ intracelular)
- Bicarbonato de sódio 1–2 mEq/kg IV (acidose + hiperpotassemia)
- Resinas de troca: patiromer, SZC (sodium zirconium cyclosilicate) — removem K⁺ GI
- Hemodiálise: hiperpotassemia grave refratária
💊 Tratamento
Medidas Gerais
- Tratar a causa: reposição volêmica (pré-renal), desobstrução (pós-renal), suspender nefrotóxicos
- Reposição de volume: cristalóides (SF 0,9% ou RL); cautela para não sobrecarregar
- Evitar nefrotóxicos: AINEs, contraste (pré-hidratar com SF 0,9% 1 mL/kg/h × 6–12 h antes do contraste)
- Ajuste de doses de medicamentos conforme RFG
- Nutrição: proteínas 0,8–1,2 g/kg/dia (não restringir desnecessariamente); calorias 25–30 kcal/kg/dia
- Controle de hiperfosfatemia e acidose
Prevenção de LRA por Contraste (PCILRA)
- Pré-hidratação com SF 0,9% 1 mL/kg/h nas 6–12 h anteriores ao procedimento
- N-acetilcisteína: sem benefício consistente (não é mais recomendada rotineiramente)
- Usar menor volume de contraste isosmolar ou hiposmolar
Terapia de Substituição Renal (TRS)
Indicações urgentes (AEIOU):
- Acidose refratária (pH < 7,15)
- Eletrólitos: hiperpotassemia refratária (K⁺ > 6,5 + ECG)
- Intoxicação (lítio, metanol, etilenoglicol, salicilatos)
- Overload (edema pulmonar refratário)
- Uremia sintomática (encefalopatia, pericardite, sangramento urêmico)
Modalidades:
- HDIC (Hemodiálise intermitente): hemodinâmica estável
- HDCI/CVVH/CVVHDF (contínua): hemodinâmica instável, UTI
- Diálise peritoneal: crianças, acesso vascular impossível
📌 Síndrome Hepatorrenal (SHR)
- Forma de LRA em cirróticos com ascite refratária: vasoconstrição renal intensa + vasodilatação esplâncnica
- SHR-AKI (tipo 1): creatinina > 2,5 mg/dL em < 2 semanas; pior prognóstico
- SHR-NAKI (tipo 2): progressão mais lenta; ascite refratária
- Tratamento: terlipressina 1–2 mg IV a cada 4–6 h + albumina 1 g/kg/dia (máx 100 g/dia) × até 14 dias — resposta em 50–60%; transplante hepático é o único tratamento definitivo
📈 Prognóstico
- Recuperação completa: 60–70% dos sobreviventes da LRA aguda
- LRA → DRC: risco proporcional à duração e gravidade da LRA; cada episódio aumenta risco de DRET
- Mortalidade em UTI: 40–60% quando dialítica; maior se oligúria não revertida em 72 h
⚡ Dicas de Prova
- KDIGO: Cr ≥ 0,3 mg/dL em 48 h OU ≥ 1,5× basal em 7 dias OU diurese < 0,5 mL/kg/h × 6 h
- FENa < 1% = pré-renal (rins intactos retendo Na); FENa > 2% = NTA (rins lesados não concentram)
- NTA isquêmica × pré-renal: pré-renal melhora com expansão volêmica; NTA não melhora
- Contraste iodado: pré-hidratar com SF 0,9% — N-acetilcisteína não mais recomendada rotineiramente
- Hiperpotassemia: gluconato de cálcio estabiliza membrana (efeito imediato); insulina + glicose desloca K⁺ intracelular
- SHR-AKI: terlipressina + albumina — resposta em 50–60%; único tratamento definitivo = transplante hepático
- Indicações de TRS (AEIOU): Acidose, Eletrólitos, Intoxicação, Overload, Uremia
- Nefrite intersticial aguda: suspeitar com uso de AINEs/antibióticos/IBP + eosinofilúria + rash + artralgia
- LRA pós-renal: USG mostra hidronefrose; alívio da obstrução pode reverter função rapidamente
- Rabdomiólise: CPK muito elevada + urina cor de chá + FENa pode ser < 1% (causa confusão) → hidratar vigorosamente
📚 Referências
- KDIGO AKI Guidelines 2012 (atualização 2024)
- AASLD: SHR — Hepatology 2021; EASL: Decompensated Cirrhosis 2018
- SBN (Sociedade Brasileira de Nefrologia): Consenso LRA, 2022
- AMIB: Terapia de Substituição Renal na UTI, 2023
- Kellum JA et al.: Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). Nature Rev Nephrol 2021