Influenza (Gripe)
📊 Epidemiologia
- VĂrus Influenza A, B, C (A e B = doença sazonal humana; A = pandemias)
- Sazonalidade: abril–setembro no Brasil (hemisfério sul)
- Incidência anual: 5–15% adultos; 20–30% crianças
- Mortalidade: ~500.000/ano mundial; idosos >65 anos = 90% das mortes
- Grupos de risco para complicações: >60 anos, crianças <5 anos, gestantes, imunossuprimidos, doença crĂ´nica (cardĂaca, pulmonar, renal, DM, obesidade mĂłrbida)
- Pandemias históricas: 1918 (H1N1 "gripe espanhola" — 50 milhões mortes), 2009 (H1N1 pdm09)
🔬 Virologia e Patogênese
- VĂrus RNA envelopado, famĂlia Orthomyxoviridae
- AntĂgenos de superfĂcie:
- Hemaglutinina (HA): ligação ao ácido siálico do epitĂ©lio respiratĂłrio (entrada do vĂrus)
- Neuraminidase (NA): liberação dos vĂrus das cĂ©lulas infectadas (alvo do oseltamivir)
- Deriva antigênica (drift): mutações pontuais HA/NA → epidemias sazonais (necessidade de vacina anual)
- Salto antigênico (shift): recombinação genética entre cepas humanas e animais → nova cepa pandêmica
- Replicação em epitélio respiratório superior e inferior → necrose epitelial, cilioparalisia → infecção bacteriana secundária
🩺 Quadro ClĂnico
Apresentação tĂpica: inĂcio abrupto de febre alta (38,5–40°C) + mialgia intensa + cefaleia + tosse seca — diferencia da Rinofaringite comum (inĂcio gradual, coriza predominante, sem febre alta)
| Sintoma | Influenza | Resfriado comum |
|---|---|---|
| InĂcio | Abrupto | Gradual |
| Febre | Alta (≥38,5°C), frequente | Ausente ou baixa |
| Mialgia | Intensa, prostração | Leve |
| Cefaleia | Frequente, intensa | Leve ou ausente |
| Coriza | Leve | Proeminente |
| Faringite | Moderada | Proeminente |
| Tosse | Seca, intensa | Leve |
| Duração | 5–7 dias (tosse pode durar 2 sem) | 7–10 dias |
🩺 Diagnóstico
- ClĂnico (maioria dos casos): sĂndrome gripal clássica em perĂodo epidĂŞmico
- RT-PCR (gold standard): swab nasofarĂngeo; confirma e subtipa; indicado em hospitalizados e imunocomprometidos
- Teste rápido de antĂgeno (RIFI): rápido mas sensibilidade 60–70% (falso-negativo em 30–40%)
- Culturas virais: lenta; fins epidemiolĂłgicos
- LaboratĂłrio inespecĂfico: leucopenia ou leucocitose leve, linfĂłcitos relativamente ↑
đź’Š Tratamento
Antivirais
| Medicação | Mecanismo | Dose | Indicações |
|---|---|---|---|
| Oseltamivir (Tamiflu) | Inibidor NA | 75 mg 12/12h Ă— 5 dias | 1ÂŞ linha; iniciar em <48h do inĂcio dos sintomas |
| Zanamivir | Inibidor NA (inalatĂłrio) | 10 mg 12/12h Ă— 5 dias | Alternativa; contraindicado em broncoespasmo |
| Baloxavir | Inibidor cap-dependente | Dose única VO | Aprovado para ≥12 anos; reduz resistência |
| Peramivir | Inibidor NA (IV) | 600 mg dose Ăşnica | Casos graves, IV, impossibilidade de VO |
Quando iniciar oseltamivir:
- Sempre em: hospitalizados, doença grave, grupos de risco (mesmo após 48h)
- Casos leves em indivĂduos saudáveis: benefĂcio marginal; pode iniciar nas primeiras 48h
- NĂŁo esperar resultado de teste em casos com indicação clara (risco clĂnico)
Resistência: cepas H1N1 resistentes ao oseltamivir (H275Y) — usar zanamivir
Sintomáticos
- AntitĂ©rmicos: paracetamol (AAS contraindicado em crianças — SĂndrome de Reye)
- Hidratação, repouso
⚠️ Complicações
| Complicação | CaracterĂsticas | Manejo |
|---|---|---|
| Pneumonia bacteriana secundária | 3–5 dias após melhora → febre recrudescente + tosse produtiva | ATB (S. pneumoniae, S. aureus, H. influenzae) |
| Pneumonia viral primária | Progressão rápida, bilateral, SDRA | UTI; oseltamivir |
| Miosite e rabdomiólise | CPK ↑, dor muscular grave | Hidratação agressiva |
| Miocardite/pericardite | ↑ troponina, ECG alterado | Suporte, corticoide |
| Encefalite | Rara; crianças; convulsões, alteração de consciência | Suporte; oseltamivir |
| SĂndrome de Reye | Crianças + AAS → encefalopatia + hepatite sem icterĂcia | Evitar AAS! |
Indicação de UTI/ventilação: SatO2 <92%, FR >30, hipotensão, infiltrado bilateral, PA02/FiO2 <300
🛡️ Prevenção
Vacina Influenza (Trivalente/Tetravalente)
- Composição: atualizada anualmente pela OMS (cepas circulantes previstas)
- Eficácia: 40–60% geral; melhor quando correspondência com cepa circulante
- Esquema Brasil (PNI): anual, campanha abril–maio (antes do pico outono-inverno)
Grupos prioritários PNI:
- ≥60 anos, gestantes (qualquer trimestre), puérperas até 45 dias, crianças 6 meses–5 anos
- Profissionais de saĂşde, povos indĂgenas, portadores de comorbidades, imunossuprimidos, privados de liberdade, pessoas com deficiĂŞncia permanente, caminhoneiros e motoristas de transporte coletivo
Tipos de vacina:
- Inativada (injetável): indicada para todos os grupos; segura na gestação
- Atenuada nasal (LAIV): crianças 2–17 anos sem asma; contraindicada em imunossuprimidos
Quimioprofilaxia
- Oseltamivir 75 mg/dia × 10 dias (expostos de alto risco sem vacinação ou vacinados recentes)
- Principalmente em surtos em instituições fechadas (asilos, hospitais)
⚡ Dicas de Prova
- InĂcio abrupto + febre alta + mialgia intensa = Influenza (≠resfriado que Ă© gradual e com coriza)
- Oseltamivir em <48h — após 48h ainda é indicado em grupos de risco e casos graves
- AAS contraindicado em crianças com Influenza — risco de SĂndrome de Reye
- Salto antigênico (shift): recombinação → pandemia; deriva (drift): mutação → epidemia sazonal
- Vacina anual: cepas mudam; eficácia variável (40–60%)
- RT-PCR = gold standard; teste rápido = sensibilidade 60–70% (falso-negativo comum)
- Pneumonia bacteriana secundária: melhora → piora após 3–5 dias → S. pneumoniae ou S. aureus
- Oseltamivir IV (peramivir) = opção em casos graves sem condição de via oral
- Gestantes = grupo prioritário para vacinação e para oseltamivir em caso de infecção
- Grupos de risco: ≥60 anos, gestantes, imunossuprimidos, crianças <5 anos, comorbidades